De dentro para fora no The show must go on de Jérôme Bel

Somos 20 pessoas. Negras, brancas, com e sem Síndrome de Down, com ou sem experiência em dança e outras artes do corpo. Alguns chegam ligeiramente atrasados, alguns tiram os sapatos, todos somos brasileiros em nossas diferenças. É a primeira vez que The show must go on (TSMGO) será remontada aqui com um elenco todo nacional. Em 2002, um ano após sua estreia, esta peça de Jérôme Bel, provocativo e renomado coreógrafo francês, foi apresentada neste mesmo Festival Panorama.

Humor, generosidade e crítica estão em perfeita harmonia em The Show Must Go On, que explora a imersão no universo pop e a relação entre música e imagem. Uma seleção de músicas que habitam o imaginário ocidental serve de estímulo para as experiências realizadas pelos atores. A identificação entre espectadores se dá de maneira imediata. Não há figurino especial, não há cenário, não há virtuosismo. A literalidade dos refrões é levada à risca, e espectadores e atores constatam partilhar de imagens comuns, muitas vezes de uma obviedade desconcertante. Em alguns momentos, o palco completamente vazio permite a cada espectador projetar a imagem que faz daquela música e da cena, desenhando o espetáculo a seu modo, já que o show deve continuar.

Silvia Soter para O GLOBO, em 13 nov. 2002.

 

Sem dúvida, o francês Jérôme Bel, com seu em The Show Must Go On, foi a grande atração, arrebatando o Teatro Carlos Gomes, lotado, que sucumbiu às discussões sutis do coreógrafo sobre a cultura pop, a autoria e a própria dança.

Roberto Pereira para JORNAL DO BRASIL, em 30 dez. 2002.

Em 2016, TSMGO volta no ano de celebração dos 25 anos do Festival. Trazer novamente para um palco carioca uma obra que há muitos anos vem causando as mais diversas reações em plateias de todo o mundo é revisitar não só a história da dança, mas a história da dança carioca, em específico. Trazer a obra novamente para a cidade é, necessariamente, criar uma nova obra. E isso vai além de se ter um elenco nacional dançando (fato que já é comum quando essa peça é remontada ao redor do mundo). Não somos nem o mesmo público nem a mesma dança de catorze anos atrás, mas parece que ainda levamos as mesmas questões, assim como Jérôme e seu show que continua (o mesmo). Em 2002, eu era uma criança e o único contato que tive com a obra, já adulto, foram as críticas jornalísticas e o relato de quem pôde assisti-la ao vivo. Esse ano, na impossibilidade de assistir à obra, uma vez que faço parte do elenco, proponho uma escrita de dentro para fora, uma escrita de um processo que, geralmente, a crítica especializada não vê.

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Os remontadores, um português e uma alemã, que já dançaram TSMGO anos atrás, nos recebem na sala. Nós nos apresentamos, eles também se apresentam e nos explicam um pouco do trabalho. O essencial para começarmos. Quem já conhecia a obra não deveria se manifestar demais às propostas e quem não conhecia foi aconselhado a não procurar sobre. A ideia é que descobríssemos como dançaríamos no caminho, de acordo com cada estímulo.

Primeira música com performers em cena: “Come together”, John Lennon. Somos instruídos a reagir sempre após o refrão de cada música. E então, no primeiro “COME TOGEHER, RIGHT NOW”, todo mundo vai pro meio e a coisa vira um grande “carnaval-contato-improvisação” (obviamente!). E (também obviamente) nossos remontadores europeus não curtem. Terminamos. Havíamos dançado demais, brincado demais, ficado together demais. Repetimos até que, instruídos, chegássemos à forma desejada. À forma de Jérôme Bel. Ficamos em dúvida sobre o quão juntos ficávamos naquela forma parada e sem contato físico.

Cada

pessoa

num

lugar.

Encarando

o

público

em

silênshhhhhhh

“Agora vocês devem ser europeus”, ouvimos sobre a entrada de “Come together”. Não sei o quanto esta frase reverberou na cabeça de algumas pessoas, mas da minha cabeça ela não saiu mais. And I was like: Man, how do you come to Brazil and ask us to perform as we are not from here? Questions…

Fizemos mais algumas experiências. Fomos até a terceira música do espetáculo no primeiro ensaio. “Let’s dance”, de David Bowie, seguiria “Come together”. De novo dançáramos demais, reagíramos demais ao estímulo. E aí nos instruíram a dançar menos, como geralmente dançamos em casa sozinhos no quarto. Era uma dança de economia. E aí quem ainda dançava demais, quem era perceptivelmente profissional de dança, foi advertido. Todos se olham. “Mas é assim que a gente dança em casa!”, os olhares diziam. Mas tudo bem. Uma vez bailarinos, levar o corpo para esse lugar do não bailarino, do outro, não seria muito difícil. Mas a dúvida fica no ar: se não é para ser bailarino, o que ser? Como ser? As diferentes técnicas de dança que trouxéramos em nossos corpos não pareciam ter lugar neste espetáculo que preza por outras questões, que não se mostraram tão claras num primeiro momento.

“I like to move it” foi o oposto de Bowie. Exagero. Quem dançasse deveria ser virtuoso, ainda que executássemos uma “não dança”, um mover que era para ser apenas um mover mesmo, um gostar de mover algo, como a própria canção nos sugeria. Todos mortos. Muitos muitos muitos muitos muitos muitos muitos muitos movimentos repetitivos. Todos mortos. O ensaio acaba e a dúvida sobre que dança é essa que não é nossa e que não é dança, fica no ar. O elenco é nacional, as pessoas estão ali para que o público se identifique com elas, mas, mais uma vez, Jérôme Bel planta sementes de discórdia e “disdança” em nossos corpos e no Panorama, como já o havia feito, em 2002, com o mesmo TSMGO e, em 2014, com Disabled Theater.

Os ensaios seguem. Somos um grupo muito heterogêneo e com necessidades diversas e distintas. A cada questão ou novos rumos que o espetáculo toma, vai ficando nítido que há uma fórmula a ser seguida, quase um manual. No youtube, vários vídeos com os mesmos remontadores nos mostram isso. Há 15 anos esse espetáculo vem sendo dançado ao redor do mundo, com questões levantadas em 2001 e até antes, e que talvez já tenham sido respondidas (ou não) e talvez já tenham dado lugar a novas questões (ou não). Mas a sensação de ser o X numa fórmula cujo resultado já se sabe é cada vez maior.

Como já conhecia a peça, tento não reagir aos estímulos propostos, dar espaço para quem ainda não conhecia poder se manifestar, ainda que a cada passo fique muito nítido que não há laboratórios para esse processo. Reagir criativamente a cada música se torna apenas parte do processo de iniciação a Jérôme Bel. Respondemos, a resposta se mostra inadequada, pouco europeia, e então nos dizem o que fazer.

É engraçado pensar em termos curatoriais no quanto os perfis individuais de cada um e não necessariamente nossas potências enquanto performers valem. É como se cada um em cena tivesse sido colocado dentro de uma caixinha de necessidades da obra. Uma receita.

Para remontar esta obra você vai precisar de:

01 mulher gorda negra

01 mulher gorda branca

01 homem gordo negro

01 homem gordo branco

02 homens negros de diferentes estaturas

01 homem branco

01 pessoa andrógina

E por aí vai…

E, à medida que essas caixinhas de necessidades da obra forem preenchidas, coloca-se em prática a remontagem. Dá-se assim a comprovação da hipótese de que diferentes pessoas de diferentes partes do mundo podem realizar, sob instruções corretas e precisas, uma mesma prática que se faz querer dança, ainda que essas pessoas não sejam todas profissionais da área ou tenham o mínimo de vivência. E não ser da área de dança, dentro de uma obra de dança contemporânea, é muito válido e ainda muito atual. Todavia, fica o questionamento sobre o quanto as perguntas que a obra traz ainda são atuais. Também fica a questão sobre como a nossa interferência nessas perguntas pode ser tão pequena, numa proposta que se diz ainda contemporânea. Mas contemporânea de quem, exatamente?

Ainda sobre sermos instruídos a agir como europeus, penso na questão das músicas. Todas as músicas do espetáculo (à exceção da “Macarena”) são em inglês. As músicas guiam o espetáculo. Cada cena é construída através do entendimento que Jérôme tem de cada música e de como ela pode dialogar com as questões que o público espera de um espetáculo de dança. Então, quando num palco escuro a luz entra lentamente ao som de Let the sunshine in, a coisa toda parece fazer muito sentido. Bem como quando toca Every breath you take, do The Police, e o público é observado pelos performers.

Agir como europeus, em 2001, na Europa, e dançar um espetáculo todo em inglês faz muito sentido até. E a remontagem deste trabalho dentro do contexto de um festival internacional como o Panorama também faz. Mas a obra traz questões que por si só se veem um pouco controversas. Seja na montagem, que pouco dialoga com os intérpretes, seja na execução, que vai atingir uma parcela mínima de um público de dança, já que não é o mesmo público que assistiu a montagem há 14 anos e que não necessariamente vai possuir as ferramentas necessárias para entender o espetáculo, sendo a língua uma das maiores. A tradução nem sempre dá conta de uma inserção que se faz necessária para o mergulho na obra e a leitura do que seria um estiramento das expectativas sobre um espetáculo de dança (na Europa). Pois é desse lugar que TSMGO é coreografado. Ele é meticulosamente construído para ser literalmente inteligível. Mas hoje, em 2016, neste país tão desigual e com danças que se querem inclusivas, será que legendar a obra em português dá conta de atualizar este trabalho? Será que é eficaz a atualização deste ballet atualizado que Jérôme propõe?

Falo do lugar do coreografado, de quem entra na obra pelas coxias e não pela plateia, uma crítica às avessas de uma obra ainda nem apresentada, uma vez que a estou escrevendo durante o processo de montagem. Talvez uma crítica na contramão de uma obra que vai na contramão da dança. Ou não. Jérôme Bel desloca nosso entendimento do que queremos enquanto dança contemporânea, num fazer muito contemporâneo de dança.

É difícil pensar sobre as obras de Jérôme Bel, seja de dentro ou de fora delas. Muitas questões são sempre suscitadas. Mas ainda do lugar do coreografado, não hesito em cogitar: como seria uma versão realmente brasileira? O que o público brasileiro espera de um espetáculo de dança e como “traduzir” a expectativa em dança, como o faz Jérôme, só que de um modo que seja nosso? Será que o show pode continuar?